O futuro do gaming em Portugal está bem entregue.
A viagem começou cedo, por volta das 6 da manhã, quando saà de Chaves em direção a Lisboa para participar como júri na avaliação dos projetos selecionados para o evento. Foi um daqueles dias longos, mas com a sensação constante de que ia valer a pena, sobretudo por ser a primeira vez que participava num evento com este papel mais ativo de avaliação.
Assim que cheguei, deparei-me logo com algo que acabou por se repetir ao longo do dia, muitas caras conhecidas do meio. Entre pessoas de comunicação, devs e pessoal da indústria, houve vários reencontros e conversas rápidas que ajudaram a dar o tom do evento. É sempre curioso perceber como este meio em Portugal, apesar de não ser enorme, acaba por juntar pessoas muito diferentes em contextos muito semelhantes.
Mas o ponto central da experiência foi mesmo o papel de júri. Ver os projetos, jogar as demos e ouvir os alunos a explicar o que tinham feito já foi interessante por si só, mas tudo ganha outra dimensão quando se entra no processo de avaliação em conjunto com outras pessoas da área.
Houve um momento especÃfico em que nos reunimos numa sala para discutir os projetos e realizar as votações finais. Esse momento acabou por ser um dos mais interessantes do dia, precisamente por juntar diferentes perspetivas à mesma mesa. Estar ali lado a lado com pessoas como o pessoal do Geekinout e do Meus Jogos, bem como com devs da Camel 101, foi algo que, honestamente, considerei uma honra.
Não só pelo reconhecimento implÃcito de estar incluÃdo nesse grupo, mas também pela oportunidade de trocar opiniões e ouvir abordagens diferentes sobre o que estávamos a avaliar. Cada pessoa trazia um olhar distinto, mais técnico, mais editorial, mais criativo, e isso tornou a discussão bastante rica.
O mais curioso é que, apesar dessas diferenças de perspetiva, houve um consenso natural em muitos dos projetos. Isso diz muito sobre a qualidade do trabalho apresentado pelos alunos. Não estávamos a falar apenas de exercÃcios académicos, mas de ideias com identidade própria, algumas delas bastante bem estruturadas para esta fase de desenvolvimento.
Ao longo da tarde fui também jogando várias das demos apresentadas e conversando diretamente com os alunos. Essa proximidade acaba por ser uma das partes mais interessantes do evento, porque permite perceber não só o resultado final, mas também o processo por trás dele, as dificuldades, as decisões e as intenções criativas.
Há algo muito genuÃno em ver esta fase inicial do desenvolvimento de jogos. Nota-se experimentação, risco e, acima de tudo, vontade de fazer coisas diferentes. Nem tudo está polido, nem tudo está perfeito, mas isso não é o objetivo aqui. O mais importante é precisamente o espaço para aprender e evoluir.
No final do dia, fiquei com uma impressão muito positiva, não só pelos projetos em si, mas também pela experiência de ter feito parte daquele grupo de avaliação. Foi um daqueles momentos em que se sente que se está a contribuir, mesmo que de forma pequena, para algo maior.
O Over & Out acaba por ser isso, um ponto de encontro entre quem está a começar e quem já está no meio da indústria. E poder fazer parte desse momento, especialmente num papel de júri, foi algo que vou valorizar bastante.
O que fica desta experiência vai muito além do evento em si. Ao ver o nÃvel dos projetos, a forma como os alunos pensam e a evolução que já existe mesmo nesta fase inicial, é difÃcil não olhar para o futuro do game dev em Portugal com algum otimismo.
Há alguns anos era mais comum falar-se de falta de estrutura, falta de oportunidades e ausência de um verdadeiro ecossistema. Isso ainda não desapareceu por completo, mas já não define o panorama como antes. Hoje há mais estúdios, mais iniciativas académicas fortes, mais eventos e sobretudo mais pessoas a olhar para isto como uma carreira possÃvel e não apenas um hobby.
O mais interessante é que o talento já está cá. Não é uma questão de “se” existe capacidade, mas sim de como é que esse talento é alimentado e retido. Eventos como este ajudam precisamente nisso, porque aproximam estudantes da realidade da indústria e criam pontes que podem vir a ser importantes no futuro.
Se esta geração continuar a ter acesso a espaços onde pode experimentar, falhar, aprender e mostrar trabalho, é muito provável que Portugal comece a ganhar cada vez mais relevância nesta área. Talvez não através de grandes produções AAA feitas cá, mas através de estúdios independentes fortes, ideias originais e talento que acaba por marcar projetos internacionais.
O futuro não parece distante. Parece já estar a acontecer em salas de aula, em pequenos protótipos e em projetos académicos que, com o tempo certo, podem facilmente transformar-se em algo maior.


